21 de dez de 2012

Epitáfio Avesso.




Ainda que o mundo fosse acabar de fato, ainda assim teria recusado quando o chamaram para dançar. Gostava da música e até cantarolou quando não tinha ninguém olhando. Mas o lugar era o mesmo, as pessoas eram as mesmas, o barman era o mesmo. Ele era o mesmo. A certeza veio quando deixou escorrer a bebida pelo canto dos lábios secos. Era uísque da primeira vez que pedira, mas agora não sabia ao certo... Deveria haver algo entre conformismo e vontade rodopiando liquefeito pelo copo e esbarrando vez ou outra nas pedras de gelo. Quiçá dissolvesse a alegria irrealizada presa na garganta. Tomou outro gole.

O cabelo, despenteara no caminho. O colarinho manchado e puído, a gravata frouxa, caindo torta pelo peito feito cruz. Os olhos úmidos e cinzas. Foram chamas um dia e talvez algo que renascesse em breve. Mas não sabia ao certo. Se o mundo fosse mesmo acabar, teria dito à moça da recepção o quanto achava que ela era bonita? Teria chamado-a para sair, teria sorrido, teria aceitado quando o convidaram para dançar? Quem sabe. O mundo não acabaria. Não é?

Mas não se pode morrer engasgado de alegria, rapaz! Teria que gritá-la ao mundo antes de ir. Ou tomar para si e engolir, enfim. A iminência do fim aceleraria as sístoles e as diástoles e os desastres e o mundo ficaria mais bonito, de repente. Um coração batendo, ofegante aos suspiros.

Mas o mundo não acaba. E ainda há tempo de pedir mais uma dose de autocomiseração. Sem gelo, dessa vez. E tropeçar em poesia ao cruzar a porta.

“Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

Quem sabe um dia.

19 de dez de 2012

Lavo as Mãos.




Fitar os olhos, torpe
no espelho do banheiro
fazer escorrer, qual sorte
segredos putrefeitos
por entre os dedos,
o pulso, a palma,
o braço inteiro.

Esquecer calado.
Enxugar com calma.

Mãos limpas,
mas e agora?
como lavar
a alma?

1 de dez de 2012

Atraz da Porta.

(Com licença, Chico.)

Quando olhou bem
nos velhos versos meus
e de conhecido nada viu
tinta azul, nada além

Corri esconder-me
na entrelinha pueril:
uma melodia que ninguém ouviu,
um verso que ninguém escreveu.

Por isso fico aqui, só
atroz atraz da porta
esperando novo sol nascer

Quem sabe note minha gramática errada...
Vem e traz sua borracha usada!
Pra me apagar e me reescrever.