13 de out de 2013

Viveria


À meia luz os olhos dela são menos tristes. Os lábios rubros que se abrem, se contorcem e se envergam jamais sorriem, são meras linhas que desgrudam e se tocam num átimo para falar de amor. Tocaria a ponta dos dedos pútridos no lóbulo da orelha direita, como que para mostrar a bijuteria barata que ainda brilhava a essa hora da madrugava, estrela (de)cadente – mas querendo mesmo dizer que mais vale ouvir o silêncio porque ele não mente – tocaria se dedos pútridos ainda houvesse. O silêncio não mais agarra por trás e arranha sua cintura qual o tango taciturno da noite passada. Borrifaria, então, as últimas gotas do perfume que escorrem pelo espelho por entre os seios para tapear o cheiro dos sonhos mortos que carrega dentro de si há muito, e riria ao lembrar de que cada boca que a beijara levara um pouco daquela morte, e que em pouco aqueles dentes também apodreceriam e então restaria ali a poesia do que nunca existiu, enterrados sem nome ou epitáfio. Aqui jaz, e só. Jazia há muito. Talvez até pentearia os cabelos, que foram tranças, foram nada. E deixaria que a escova caísse no chão só para ter que se mover e sentir o calor vívido da brisa que entra pela janela despretensiosamente entreaberta, cheirando a álcool e tabaco. E fitaria fundo os olhos no espelho até que visse a própria alma, refugiada nos recônditos calejados de sua pífia existência. Num instante ralharia consigo, perguntando o que diabos se tornara, o que diabos fizera com a vida.  E cada célula que ainda vivesse amontoada sobre seus sonhos abriria os olhos, e elas se entreolhariam desacreditadas – é isso mesmo que estou entendendo? Ela prometeria a si mesma que amanhã mesmo trataria de ser feliz. E as lágrimas que escorreriam de seus olhos seriam também felizes. E assim que o sol entrasse por aquela maldita janela entreaberta e viesse tocar a brancura de sua pele, ela encheria os pulmões do ar de um novo dia e, enfim, viveria.
Viveria, se o coração que batia, batesse para levar o sangue por entre o seu corpo, e não por sobre a penteadeira.
viveria
se o coração
ainda

bat

ess

e